“Se eu cantar não chore não, é só poesia”
O fim do ano foi um tanto amargo para a música e fãs. Partiram, em um
curto espaço de tempo, músicos incríveis como André Geraissati, inovador do
violão e fundador do trio “Grupo D’Alma”, além de outros, como o cantor e
compositor Jards Macalé, o “bruxo” Hermeto Pascoal e a subestimada Ângela Ro
Ro. No exterior, também partiu gente de peso, como o guitarrista do Kiss Ace
Frehley, Rick Davies, fundador e vocalista do Supertramp e o “príncipe das
trevas” e um dos pais do Heavy Metal, Ozzy Osbourne. Para mim, porém, foi
particularmente doída a notícia recebida nas primeiras horas do dia dois de
novembro do cair da cortina para Lô Borges.
Passado o choque inicial das primeiras horas, nossos corações foram confortados
com uma série de belas homenagens a um dos maiores nomes de nossa MPB. Elas
vieram na forma de depoimentos, textos e, a mais marcante de todas, a grande
reunião que movimentou a histórica esquina belorizontina no encontro das ruas
Paraisópolis e Divinópolis. As apresentações de diversos músicos em homenagem a
Lô não poderiam ser em outro lugar senão aquele que é considerado o epicentro
simbólico de um dos movimentos mais significativos e influentes da nossa
música, o Clube da Esquina.
O Clube da Esquina foi a inovação mais criativa na música brasileira desde a
Bossa Nova e, tal como essa, de alcance além das nossas fronteiras. O movimento
tem sido bastante celebrado em tempos recentes por conta da inclusão do disco
que o batizou, “Clube da Esquina” de 1972, em diversas listas como um dos
discos brasileiros mais influentes de todos os tempos. A recente aposentadoria
dos palcos de Milton Nascimento também ajudou a resgatar o prestígio da música
criada de forma colaborativa por artistas brilhantes, como Beto Guedes, Toninho
Horta, Nelson Ângelo e Wagner Tiso. Além deles, o Clube contou sempre com o
sólido alicerce das letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant.
Embora seja claro o caráter coletivo da obra do Clube, no qual todos colaboravam
entre si nas composições, arranjos e letras, é preciso destacar o papel de Lô
Borges na vanguarda do movimento e no mesmo patamar de Milton Nascimento.
Milton, que já era um artista bem estabelecido no final dos anos 60, percebeu
cedo o talento de Lô e gravou três de suas composições no disco “Milton”, de
1970. Entre elas, estava o hoje clássico “Para Lennon e McCartney”, que mostra
a maturidade na composição de um Lô Borges com apenas 18 anos. Logo depois,
Milton enfrentaria os executivos da EMI-Odeon para dividir com o ainda
desconhecido Lô um disco duplo – o primeiro nesse formato no Brasil –, que se
tornou o marco fundador do movimento. Em “Clube da Esquina”, Lô Borges assinou
pérolas, como “O trem azul”, “Um girassol da cor do seu cabelo” e outras tantas.
Novamente, chega a ser assombroso o nível de composição de um artista que ainda
iria completar 20 anos.
Na sequência, Lô Borges assinou o contrato para seu primeiro disco solo, que
ficou conhecido como o “disco do tênis”. Lô, que havia registrado todas suas
composições nos discos “Milton” e “Clube...”, foi obrigado a entrar em uma
maratona de composição para honrar seu contrato. A estafa causada levou ao seu
afastamento do mundo da música, mas felizmente ele voltou em grande estilo no
ótimo “A Via Láctea”, de 1979. Depois disso, Lô construiu uma carreira sólida
e, em tempos recentes, mostrou que a inspiração e a transpiração continuavam em
alta ao lançar sete discos nos últimos sete anos.
Toda essa intensidade na composição e nos shows que vinham acontecendo deixa a
amarga sensação de que Lô, como sempre dizia Rolando Boldrin, partiu antes do
combinado. Como consolo, Lô Borges está na rara prateleira dos artistas que
conquistaram a imortalidade ainda em vida e terá sua música ecoando por mais
gerações. Que a obra de Lô Borges receba a aclamação que merece e que em todo
canto haja uma esquina onde artistas se encontrem para criar a música, que nos
é tão necessária para viver.


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