A viola caipira na sala de concerto
As formações eruditas como orquestras e quartetos estão acostumadas com
a presença da viola de arco, a prima maior do violino. Já a viola caipira é
figura mais rara nesses cenários, mas ela vai abrindo seu caminho. O violão,
apesar de ser um parente bem mais novo da viola caipira, já ganhou o status de
instrumento erudito e se juntou às orquestras por obra dos compositores e
instrumentistas de sua terra natal, a Espanha.
Graças a compositores como Joaquín Rodrigo e músicos como Andrés Segovia, o
violão foi aceito como instrumento erudito e ouvido em espaços de concerto.
Aqui mesmo no Brasil, onde o violão era considerado um instrumento popular,
Villa Lobos compôs um repertório que é referência mundial para o violão
erudito. E a nossa viola caipira? Ela vai aos poucos conquistando esse espaço.
A viola caipira ficou, em um determinado momento de nossa história, restrita ao
Brasil profundo e só foi resgatada para um público maior no começo do século XX
com os registros em disco promovidos pelo pioneiro Cornélio Pires. A partir
desse ponto, ela ganhou espaço também na MPB, nos tempos dos grandes festivais
dos anos 60, em canções como “Disparada”. Finalmente, por volta dos anos 80,
ela passou por um renascimento em popularidade e atraiu uma nova geração de
instrumentistas.
Um pouco antes disso, o mestre Renato Andrade já vinha demonstrando as
possibilidades técnicas e sonoras da viola, apresentando um repertório que
combinava o popular com peças de roupagem mais erudita. Na sequência, ela
ganharia também a academia. Com os trabalhos dos virtuosos instrumentistas e
professores Roberto Corrêa e Ivan Vilela, a viola passou a fazer parte do
currículo de cursos superiores de música. Acredito que é questão de tempo para
que a viola ganhe peças de fôlego, como o “Concerto de Aranjuez”, obra notável
para violão e orquestra, e conquiste seu espaço em grandes salas do gênero.
A motivação dessa reflexão foi assistir a uma apresentação de um duo
surpreendente de viola caipira e violoncelo executados, respectivamente, pelos
talentosos Neymar Dias e Vana Bock. Embora o repertório incluísse temas
populares, não faltaram peças eruditas, como adaptações de Bach e Villa Lobos.
Eu já conhecia o trabalho virtuoso de Neymar Dias e, em outra apresentação,
ouvi as incríveis transcrições que ele fez de Bach para a viola caipira.
No novo show, no qual o repertório e os arranjos ainda estão sendo gestados e
testados pela dupla, Neymar trouxe a parceria do violoncelo de Vana Bock e a
colaboração dos dois instrumentos foi uma ótima novidade. De acordo com a
dupla, existe a intenção da colaboração ser registrada em um álbum. Enquanto
ele não chega, fica a dica para ouvir o excelente “Neymar Dias Feels Bach –
Viola Brasileira Solo”. O disco de Neymar mostra algo que deveria ser óbvio,
mas não o é para muita gente: a viola é um instrumento que tem possibilidades
infinitas e pode ocupar diversos espaços, inclusive o da música erudita. Vale
até observar que ele faz questão de chamar de “viola brasileira” e não
“caipira”. Talvez seja o que melhor a descreve, já que expande os seus limites
além da música regional e pelo fato de que ela foi melhor preservada aqui do
que em sua terra de origem, a Península Ibérica.
A viola, definitivamente, não precisa do carimbo de “erudito” para mostrar seu
valor ou refinamento, mas tem todas as condições de estar na mesma prateleira
junto a concertos para piano, violino ou violão. Normalmente associada à música
caipira ou tradições populares, como a folia de reis, a viola já mostrou que
pode transitar por terrenos distintos, como o rock ou a MPB. No campo do
erudito, ela já colocou o seu pé e não há de tardar o reconhecimento por um
público maior como um instrumento realmente completo.
(Texto publicado no Jornal das Lajes em março/2026)


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